Esteja preso!

fotos antigas (13)_180x0Na bucólica Anadia aonde o relógio do tempo fazia parceria com a preguiça e ele se arrastando, demorava a passar…

A luz do dia iluminava a frente da igreja matriz de Nossa Senhora da Piedade, dando um reluzente e encantador brilho.
O casario bi centenário da nossa terra ainda existia e nos localizava para as mais diversas necessidades do dia a dia. A mercearia, a padaria, a farmácia, a loja, o alfaiate, o sapateiro, o açougue, o mercado da farinha e os bares de tantas iguarias, bebidas e fartas lembranças!
Mas, o dia corria manso, a tarde sem nenhuma vontade de passar, e a boca da noite logo chegava com seus encantos e mistérios…
Aí era que as coisas começavam a acontecer, na combinação com pouca luminosidade dos postes de luz, o cenário perfeito pra que brotassem nossas imperfeições, fraquezas e mazelas.
O dia já tinha corrido por completo, o que de bom e ruim já estava contabilizado… Eram brigas e imperfeições para todos os gostos, o marido que chegou bêbado da rua, o filho que brigou na escola, o vizinho que passou o dia dizendo impropérios, as galinhas que pularam a cerca do vizinho…
E não para não! O porco que fugiu e foi fuçar no açude bem distante, o bode que até aquela hora não tinha voltado, o peru que é o bem mais valioso do quintal ainda não está no puleiro…
“Valei-me meu Deus é briga de novo no Pernambuco Novo” gritava a Cremilda, mulher do Pinche.
E como em um roteiro de filme as cenas se somavam e se espalhavam pela cidade inteira, tendo seu apogeu no passar, no trafegar da praça Dr. Campelo de Almeida – caminho natural que levava à cadeia.
Que foi dessa vez? Ahh!! Foi o Besouro que lascou a cabeça de um lá na rua no matadouro velho; foi o Nego Áureo que no Alagadiço deu uns tapas no vizinho; foi o João da Júlia que brigou com o pessoal que estava jogando baralho com ele no Sertãozinho; foi o Cupim que deu uma pisa num cabra que não quis pagar a conta na “Boate Bahia”.
Vá somando aí pra ver quanto furdunço!!
Inúmeras foram às vezes que presenciei a invasão da nossa casa – quer seja pulando as janelas, ou aproveitando a porta de entrada que na maioria das vezes ficava escancarada…
E era com a mesma expressão de medo e busca de ajuda que vinha os gritos: “Seu Zife… Seu Delson… me socorra, a polícia quer me prender!”.
Na diplomacia, com muito jeito, uma exagerada dose de paciência e respeito, meu avô e meu pai já tinham um manual, um cabedal de condução nos recorrentes casos.
Confesso que vendo tudo aquilo meu coração fica sempre ao lado daqueles pobres errantes. E ficou marcada a frase repetida por inúmeras vezes “Calma, não precisa bater nele, ele já ta preso! Eu vou levá- lo junto com vocês à delegacia”.
Foi esse o legado que meu avô e meu pai nos deixaram!
O exercício da democracia nos tem levado a novos caminhos, novas práticas e a novos tempos.
Triste fico sempre quando vejo a soberba, a arrogância, a truculência dos ímpios e vestais, que com toga ou sem, com anéis nos dedos ou não, a perpetrarem espetáculosos e pirotécnicos episódios para se distanciarem, do comum, do normal.
Se tem provas, se é legal, se é correto, se tá na lei, diga: “Esteja preso.” E pronto. Não precisa ser debaixo de vara!
Não importa quem seja, ninguém está acima da lei, nem Pinche, nem o Besouro, nem Áureo, nem o Cupim, nem o seu Lula lá do Alagadiço, dono de vários burros e animais que transportavam areia retiradas do Rio São Miguel.
Digo isso porque sou apaixonado pela minha terra Anadia.

(*) É filho de Anadia

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