A história do Urubu-malandro que não come carniça, em Riacho Doce

Alagoas 24 HorasKiko desfila tranqûilo entre os carros na movimentada AL-101, em Riacho Doce

Kiko desfila tranqûilo entre os carros na movimentada AL-101, em Riacho Doce

A matéria em decomposição é alimento do urubu; logo, todo urubu come carniça. Certo? Errado, e a prova está em Maceió, mais precisamente em Riacho Doce, onde o policial militar reformado José Raimundo cria um urubu que come de tudo – feijão com arroz, bife, peixe, bolo, pão, mingau e bebe água de coco.

Mas, por favor, não lhe ofereça carniça, pois o urubu do seu Raimundo vira uma fera. Literalmente, e a revolta pode ser vista antes das 7 horas, quando os alunos da Escola Estadual Antônio Vasco que ousam desafiá-lo são perseguidos e bicados.

Conhecido como “Kiko”, o urubu tem 4 anos de idade e chegou pelanco às mãos de seu Raimundo. A neta, Cláudia, conta que um amigo da família, que era caçador, achou na mata um ninho com dois pelancos e deu um de presente ao avô. Criado dentro de casa, durante os seis meses o urubu se alimentou de mingau – o resto do que sobrava da mamadeira da irmã mais nova de Cláudia.

Quando cresceu, adquirindo a cor preta e engrossando o bico, “Kiko” bateu asas, mas não quis ir longe; no máximo vai à praça onde funcionou o Bar Doquinha, passeia na praia e, quando sente sede, bebe água de coco servida pelo “Irmão”, caseiro do sitio que pertence à família da jornalista Diana Monteiro. Lá, faz o lanche, servido pelas “boleiras” que negociam à margem da rodovia AL 101 Norte.

VIRA FERA

Há outra constatação nessa relação que desmente a versão, segundo a qual o urubu nasce branco. Certo? Errado, ele nasce amarelado e fica nessa cor até os seis meses; somente depois é que as penas começam a adquirir a pigmentação negra. Quem ensina é José Júlio, 65 anos, agricultor que reside na região e discorda de Raimundo.

“O urubu nasceu para voar, ir longe, viver em bando, comer carniça mesmo. Eu acho que esse urubu não se sente bem, ele não reage como os outros urubus. É a mesma coisa de pegar um camaleão e colocar dentro de casa. Camaleão é para viver no mato, trepado nos pés de paus”, ensina.

Mas a neta de seu Raimundo rebate com a argumentação de que “Kiko” até arranjou namorada. Cláudia contou que ele (o urubu) chega sempre depois das 17 horas para dormir, mas já passou até noites dormindo fora depois que arranjou uma “namorada” – o urubu fêmea veio num bando e foi embora após a temporada de caça de alimentos, mas “Kiko” decidiu ficar.

“Talvez não tenha ainda se apaixonado”, brinca Cláudia. E também não é por falta de opção; ele é livre para voar, ir e vir, como faz todos os dias. Mas, e por que não quer viver em bando? A resposta para esta pergunta pode estar no chamado “reflexo condicionado”, que não é exclusividade da raça humana.

Senão, vejamos: desde pequeno, quando ainda era pelanco, “Kiko” era levado por seu Raimundo na caminhada até a Escola Estadual Antônio Vasco, onde ele deixava a neta, religiosamente, às 6h30min. Seu Raimundo, que foi reformado como sargento da Polícia Militar, sofreu derrame e não pode mais acompanhar a neta – ela vai sozinha; quer dizer, acompanhada do alto pelo urubu, que realiza vôos rasantes até a escola.

Depois que a garota entra na escola, “Kiko” faz o passeio matinal na praia, circula entre as boleiras, e aguarda a sirene tocar o final da aula – aí volta para casa, almoça, faz a “ciesta” no coqueiro e gasta o resto da tarde na praia.

Mas, apesar da aparência frágil, “Kiko” vira uma fera com os alunos da Escola Estadual Antônio Vasco, que o provocam com brincadeiras que não aprova, tais como: atirar pedra, fazer-lhe susto. Nesses casos, ele se transforma e parte para a briga, fazendo a festa da garotada, que corre em desembalada pelas calçadas; e “Kiko” não se dá por satisfeito enquanto não consegue pegar pelo menos um dos seus agressores – ele bica com força; a garotada grita e ele (o urubu) fica satisfeito.

Em Riacho Doce é assim; o espetáculo vem do mar e ar, onde “Kiko” passeia podendo dizer que estar de cima. Literalmente.

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