Eu dormi com minha mãe

Meu pai vai me desculpar, mas ontem, 8, dormi com minha mãe. Hoje, 9, é o meu aniversário – e também o Dia Nacional do Frevo; um aparte: taí porque gosto tanto de frevo. E, obviamente, gosto mais de dona Nalva, que perto de completar 70 anos ainda cai na folia, além de me ter carregado por nove meses.

Que peso. Pense!

Dormir com dona Nalva, sentir a sua respiração como nunca mais havia sentido; vê-la se revirar na cama e acordar com o cheiro forte do café passando pelo coador foi uma sensação indescritível.

Tinha tudo a ver dormir com minha mãe na véspera do meu aniversário e o Tenório, meu pai, aprovaria se o estresse da sua correria no Recife e o jogo do Flamengo 1 e Náutico 1, no Maracanã, num sábado, 14 de fevereiro de 1981, não tivessem precipitado a sua despedida da terra.

Tinha tudo a ver dormir com dona Nalva porque nasci numa quinta-feira do dia 9 de fevereiro de 1951 – e hoje é 9, quinta-feira.

Em 1961, quando completei 10 anos, meu pai me levou para Recife e era Carnaval; ele estava engajado na campanha de Miguel Arraes, candidato a governador de Pernambuco; na condição de redator do jornal “A Voz do Ferroviário do Nordeste”, tinha a pauta cheia e deixou-me com dona Nalva, que me apresentou ao frevo

Ontem, 8, à noite, regredi 55 anos e vi-me um espermatozóide sacana, dando rasteira em milhões de outros que tentavam entrar para fecundar dona Nalva; e deveriam ter entrado, se eu não fosse um espermatozóide oportunista, um fura-fila sacana, um estúpido.

Desculpe-me, minha mãe, entre aqueles milhões de espermatozóides que se perderam porque eu barrei pela minha esperteza, com certeza estaria alguém melhor do que eu; no mínimo, alguém menos chinfrim.

Mas, dona Nalva é mãe e mãe vocês já sabem – os filhos não têm defeito.

Sendo assim, saio novamente da barriga de dona Nalva embalado pelo som da música de Silvio Rodrigues e Pablo Milanês, presente dos meus filhos Zé Aprígio e Nelson, aquela música que diz mais ou menos assim:

“El passado non voy hay negar/ el futuro um dia chegará” – coisas de mãe e de filhos que ainda acreditam que um espermatozóide sacana poderá, um dia, virar gente.

Obrigado por tudo, dona Nalva.

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