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Crônicas e Agudas por Walmar Brêda

Walmar Coelho Breda Junior é formado em odontologia pela Ufal, mas também é um observador atento do cotidiano. Em 2015 lançou o livro "Crônicas e Agudas" onde pôde registrar suas impressões sobre o mundo sob um olhar bem-humorado, sagaz e original. No blog do mesmo nome é possível conferir sua verve de escritor e sua visão interessante sobre o cotidiano.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

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Quando escolhi a área que iria atuar em minha profissão, há mais de vinte anos, não sabia nada sobre a vida. Eu era um moleque que fez escolhas quase no “uni duni tê” -não que hoje seja muito diferente…ehehe- mas, enxergo hoje as coisas mais ou menos como elas são, pois passei a ter uma compreensão mais acurada do que acontece no mundo ao nosso redor. Hoje agradeço àquele menino que fui um dia -como diria aquela velha frase de William Wordsworth ” O menino é pai do homem”- pela escolha da área da saúde, ou biológica, para trabalhar nesse mundo de meu Deus. Apesar de cada uma delas ter suas dores e delícias, na biologia estamos sujeitos e submetidos a regras superiores, universais, absolutas e quase invioláveis, que foram forjadas e moldadas pela natureza ao longo de bilhões de anos -assim também como outras áreas, como por exemplo a de exatas.
Todo esse arrodeio é para dizer que certamente não conseguiria trabalhar e me realizar caso minha escolha tivesse sido a área de humanas -ciência inteiramente criada pelo homem, cujas leis e suas interpretações são puramente e unicamente controladas pelo ser humano -vejo isso como um bem e um mal. Eu explico.
Um engenheiro ao calcular uma viga estrutural, tem de fazê-lo obedecendo às leis universais e absolutas da física -não tem como “dar um jeitinho” na aplicação da lei da gravidade, nem ter uma “interpretação pessoal” para a resistência dos materiais. Se o cálculo e o planejamento técnico estiverem errados -“cabrum!”-a viga desaba e vai ao chão. Pronto.
As leis vigentes na área da saúde também seguem o mesmo princípio e não aceitam interpretações relativas -o medicamento que cura, torna-se um veneno se não aplicada a dose correta. Até mesmo a economia, apesar de ser uma ciência humana, também está  sujeita a leis mais previsíveis e pouco manipuláveis. Nesse ambiente de trabalho as regras são claras e absolutas e não há espaço para o “não é bem assim”. Isso faz com que o profissional das áreas não-humanas tenha uma visão mais absoluta do certo e o errado e de causa e efeito.
Não me imagino,  portanto, atuando em uma área onde dois mais dois são quatro, “mas a gente pode brigar para ser cinco”. Assistimos então estupefatos o teatro do absurdo que se desenrola no ambiente político e jurídico em nosso país. Nós, profissionais das ciências não-humanas, temos uma dificuldade maior em entender, aceitar e engolir os fatos e seus desdobramentos que acontecem dentro desse sistema fechado -ali as coisas não são o que são. A relação de causa e efeito, crime e castigo, remédio e dose são relativizadas e, ao final, decididas não por regras absolutas ditadas pela natureza, mas pela lógica peculiar do pobre bicho-homem, passível de equívocos, dolos, preconceitos, subornos e outros  critérios que deixam uma margem enorme de interpretações para o mesmo fato, causando em nós uma enorme indignação e revolta.
Nesse ambiente, é possível questionar  a culpabilidade de um governo que instalou  desde o primeiro dia uma quadrilha de malfeitores para assaltar os cofres públicos- isso é um fato. Mas, mesmo assim escondem-se e defendem-se debaixo  de normas técnicas elásticas e obliquas, com suas interpretações incoerentes e ilógicas para quem é de fora, porém belas e sensatas para os que dessa selva fazem parte -afinal, estão acostumados a lidar com este cenário em seu dia a dia.
Prefiro ater-me às forças mecânicas aplicadas para a movimentação dos dentes ou até tentar entender o cálculo de uma equação diferenciada de terceiro grau. Tornamo-nos com isso, absolutos e lógicos não só em nossa visão de mundo, mas também em nossos valores -assim é bem mais fácil compreender a natureza das coisas.
Dois e dois são quatro e não há outra resposta possível. Se alguém for comprovadamente pego roubando dinheiro público, deve devolvê-lo e ser punido e não há outra resposta possível.

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